quarta-feira, 21 de abril de 2010

Uma canção de amor pra voce

Hoje nem quero ler o jornal. A injeção que não dói ainda não saiu das paredes da Universidade chinesa, o pâncreas artificial ainda está em desenvolvimento. A chuva? Dará trégua apenas por mais alguns dias e os moradores retirados das áreas de risco do Rio de Janeiro ainda não receberem o aluguel social do Governo e continuam amontoados em colégios e igrejas. Hoje não quero sofrer na Língua o que já sofremos ( e de sobra ), no corpo. A língua que desejo é a que beijo, quente e perfumada. Hoje quero me ler em olhos atentos e escrever canções de amor. Fechar os olhos e saber que tenho com quem contar. Que tenho boas notícias.Este jornal fechado eu rabisco, ponho bigodes nas fotos das modelos, circulo todos os quês e anoto meu telefone para quem sabe, dá-lo a garçonete que todas as manhãs serve minha média costumeira e todas as tardes, com um sorriso, me oferece uma cadeira e a bebida preferida.Quem sabe ela não liga? Quem sabe o jornal destruído não trás boas notícias a quem encontrar seus pedaços? Quem sabe? Os quadrinhos não e nem as palavras cruzadas. Estes estão destinados aos meus pequenos sobrinhos que não passam sem eles.Só mais este retrato de criança. Este também. Um sorriso limpo, cheio de futuro e inocência. Distantes do presente impreciso e protegidos por uma aura de vontade e de fé. Tudo guardado, hora de ir embora assinar o ponto, assumir o dia. A foto de criança vai para dentro da bíblia. Agora, boas notícias. A canção de amor já foi escrita.
Charlene França

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Estamos de volta

Queridos
Depois de longas férias o Recheio de Página está de volta com
mais degustação dos meusa textos e em breve, com mais notícias do meio acadêmico
exclusivamente para vocês.
Não deixem de aproveitar este espaço criado, multifacetado e pensado
com muito carinho para ser saboreado, ao contrário dos sabores azedos
que temos encontrado por aí. Então, fiquem à vontade e bem vindos de volta!!!
Charlene França

Isso é o que eu acho

Uma sexta feira, final de expediente e aquela sensação de estar se livrando do aprisionamento semanal nosso de todo o dia. Entrei no ônibus já preparado para o segundo aprisionamento: O engarrafamento. É só ter calma, disse a mim mesmo. No próximo mês já será possível procurar um consórcio e sair dessa em vinte minutos... e em duas rodas, o que é melhor.Já conseguia até ouvir a melodia harmônica das quinhentas cilindradas, quando meu rápido e febril delírio foi interrompido por um anuncio. Era um camelô vendendo canetas. Canetas com calendário, tabuada, com perfume, para CD e DVD, só não tinha identificador de chamadas nem Bluetooth, mas tinha de tudo.Então, comecei a reparar, já que o sonho de liberdade já havia ido embora mesmo pela janela e meus pensamentos voltaram a se sentar no banco do ônibus, olhei melhor e prestei a atenção. Camelô?? Acho que não! Um rapaz alto, de cabelos loiros perfeitamente cortados e caindo por cima dos atentos olhos cor de caramelo. Camelô? Mas ele não faz um péssimo uso da Língua... eu prestei a atenção às concordâncias, colocações pronominais e à forma como ele se dirigia às pessoas. Maior correção impossível. Camelô?? Ele é um boyzinho que o papai pôs de castigo sem mesada. Isso sim!Ele nem fala gritando! A única gafe cometida foi pular a roleta. Mais nada. Observei intrigado. O que será que ele quer aqui? Ainda estava me perguntando quando ele rapidamente agradeceu ao motorista e desceu, para continuar o trabalho em outro ônibus, já parado no ponto. Julguei aquilo um abuso, afinal tanta gente realmente precisa!Sendo ainda metade da viagem até a minha casa, já que o engarrafamento não terminou ainda e nem o mês, virei o rosto em direção à janela. Pensando na conta vencida ontem, ( culpa do patrão que não me liberou mais cedo ) e no seminário para a faculdade que ainda estava incompleto, comecei a cochilar embalado pelo balanço do ônibus até que fui interrompido por um grito: Senhoras e senhores! Desculpa estar incomodando o silêncio da sua viagem, mas o camelô vem trazendo... e etc.Desta vez um menino, muito mal vestido e franzino que mal agüentava carregar as balas que trazia, e gritava com voz estridente: Um real, Um real! Acordei assustado e olhei em direção à porta dianteira. Agora sim, alguém que tem necessidade desse tipo de trabalho. Tudo normal. Como faltam dez minutos ainda até chegar em casa e a Lotus Music só abre mais tarde, volto a cochilar. Desce o menino com as balas na mão.

Manhã

A poesia caminha passo a passo comigo
Mas você já foi embora.
Não espero nada, só vejo o perdido
Passando e não vejo a hora.
Você foi embora e eu passo
Cada pedra portuguesa
Cada acorde de flauta...
Rua do Ouvidor, cada compasso
Não sabia, tua aura, quanta falta!
Quase me perdi... Amanhã já passou
E você já foi embora
Agora, desejaria só o que sobrou
Lá fora.
Um sorriso nulo de canto,
Uma palavra rida, descuidada
Mas você já foi embora
E agora só o pensamento e tanto
As manhãs, as de sempre, as de agora.
Já chegou. Seu carinho de súbito
e... já é hora
Mal acordei, nem esperava
Mas você já foi embora.
Charlene França