quarta-feira, 12 de agosto de 2009

XIII congresso de Línguística e Filologia - UERJ


O Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Línguísticos ( CiFEFiL ) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro ( UERJ ) realizará de 24 a 28 de Agosto de 2009 o XIII Congresso Nacional de Linguística e Filologia.
Com a participação do Centro Filológico Clóvis Monteiro e do Laboratório de Idiomas do instituto de letras, o evento que homenageará Aurélio Buarque de Holanda Ferreira oferecerá ao público 21 mesas- redondas, 4 conferências, 50 grupos de comunicações coordenadas, 9 palestras, 10 minicursos, 60 pôsteres além de uma tarde de autógrafos e de duas sessões culturais com coquetel e música ao vivo.
Os interessados poderão inscrever-se ( com ou sem apresentação de trabalhos ), além de obter informações e a programação completa do evento também pelo site www.filolofia.org.br/xiiicnlf.
A Universidade do Estado do Rio de Janeiro fica situada à Rua São Francisco Xavier nº 524 Maracanã, Rio de Janeiro e a programação ocorrerá no Intituto de Letras no 11º Andar.


Charlene França

O atraso

Um acontecimento marcante? Impossível. Um cronista que se respeite nao elege nunca um só fato, um momento, um acontecimento envolto em uma aura etérea e inesquecível. Nunca. Se assim fosse, teria a vida limitada a uma única e solitária crônica.
Assim, uma perspectiva canônica despe de beleza e significado os outros momentos da vida. E por serem "outros " nao são vida? Não faz parte do cotidiano e não é importante perder uma oportunidade, guardar um texto escrito em um velho papel, ser acometido de dengue, receber um caloroso " bom dia " ou simplesmente atrasar-se?
Pois digo que sim. Tudo isso é importante e fundamental para se chegar aos "momentos inesquecíveis " que ocupam nossos álbuns fotográficos e espaços respeitáveis em nossas paredes.
Um exemplo claro disso, é que um dia, há um mês, eu simplesmente me atrasei. Quando atrasados deixamos de captar as músicas, os olhares e as cenas que passam distraídas à nossa frente, mas mesmo assim, em meio a pressa, algo me chamou a atenção. Uma senhora muito suja e mal vestida que revirava uma papeleira no movimentado centro do Rio, em busca de páginas amarelas, amassadas e perdidas de um velho livro.
Que intrigante! Uma papeleira no centro de uma grande cidade poderia fornecer àquela mulher formas de suprimento para as suas necessidades mais básicas, mas suas mãos trêmulas e sujas juntavam páginas de sonhos. Mas por que um livro? Seria para ela a válvula de escape de uma realidade tão dura e sufocadora? O atraso não me permitiu saber.
Só posso afirmar que para ela, ter um livro nas mãos e se sentir nele representada ou reconfortada, foi tão importante quanto foi pra mim a primeira crônica publicada e o primeiro prêmio literário tão sonhado e recebido sem esperar.
Isso tudo também está envolto de significado e beleza. Basta atentarmos um pouco mais para os atrasos. Aprendi que eles não devem ser desprezados.

Charlene França

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Menino na sexta série

Foi exatamente naquela tarde de Março que tudo começou a descortinar-se diante dos meus olhos. Não lembro a data com precisao, mas sei que era uma segunda feira chuvosa, de céu plúmbeo porém de temperatura amena, o que atrairia a qualquer garoto de doze anos a ficar em casa diante da televisao.
Não posso negar que como tal, desejei o mesmo a princípio, mas a insistência de minha avó e a saudade dos colegas me motivaram a vestir o uniforme guardado ha meses, calçar os tênis empoeirados e com toda a preguiça habitual da adolescencia, seguir a pé até o colégio para o primeiro dia de aula.
Hoje, já distante de ser um menino na sexta série, percebo o quanto são diferentes as prioridades nessa idade. A caminho do colégio eu só tinha na mente a TV e as partidas de futebol já marcadas para a semana seguinte no campinho da rua de trás.
Foi quando cheguei ao colégio que passava por reformas e começava a dar um ar até mais bonito à Rua Romeu Casa Grande, no subúrbio do Rio, próximo a minha residência. A imagem das escadas lotadas ainda é nítida como uma pintura, mas foi na sala de aula que minhas prioridades começaram a mudar e minhas perspectivas sofreram sua alterações primeiras, tudo rápida e simultaneamente a partir da entrada do professor de matemática que nao possuía um dos braços.
Ao saudar a todos com um " bom dia ", a turma agitada calou-se. Mostrando conhecimento e desenvoltura, limpando por vezes o apagador na sola dos sapatos, ele prendia a minha atenção para a aula e para si próprio.
Então de olhos bem abertos eu começava a aprender ; menos com a aula do que com o exemplo de vida que aquele senhor transmitia. Com todas as dificuldades que poderia enfrentar, ele simplesmente sonhou e com todo o esforço necessário, havia conquistado o que queria, estudado e superado os obstáculos.
Percebi naquele momento que precisava valorizar a educação e as oportunidades que recebia. Começava a surgir em mim então um sentimento de responsabilidade e revisão do que eu tinha priorizado até entao.
Saí dali com um outro olhar. Olhar proporcionado por aquele homem que sem um dos braços, havia abraçado seu mundo e mudado para sempre o que seria o primeiro dia de aula de um menino na sexta série.

Charlene França